quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Usando Linhas na Composição Fotográfica

Por Waldyr Neto


Já percebeu que em algumas fotos nosso olhar parece ser conduzido, levado adiante até um ponto de interesse?

Normalmente isso acontece quando a foto tem linhas, ou linhas-guia, que levam o olhar para algum lugar. De preferência algum lugar com um elemento importante, melhor ainda se for o "ator principal" da foto.

Usar linhas-guia numa foto pode ser bastante simples, mas quando se vai mais a fundo surgem nuances bem interessantes - pontos de entrada, elementos que atraem ou afastam o olhar, espaços vazios, etc.

Mas calma, vamos por partes... Começando pelo começo...

Amanhecer na Pedra das Flores, Serra do Lopo

Uma composição fotográfica com linhas pode ser algo extremamente simples, e ao mesmo tempo poderoso. Um filete de água iluminado levando o olhar para um céu com nuvens alaranjadas acaba sendo uma foto muito bem resolvida. O simples que funciona. E um pouquinho de vinheta acrescentado no tratamento aprisiona mais ainda o olhar dentro da foto.


Mas essa composição super simples já contem praticamente todos os nossos elementos de estudo. Vamos ver:

  • Um ponto de entrada, que é o primeiro plano. É natural começar a olhar uma foto pelo primeiro plano.
  • Um caminho a percorrer, a linha-guia, que nessa foto é o filete d'água.
  • Limitadores do olhar, que são as áreas escuras nas laterais do filete e o topo da foto, escurecido com uma vinheta.
  • "Ator principal", o elemento principal de interesse, que é o céu alaranjado.
Então olhe bem.... a foto abaixo não teria essencialmente a mesma composição?

Igreja de São Francisco de Assis, São João del Rei

Interessante né? 

Então vamos em frente que tem mais...

Rio Tek e Monte Kukenan, Gran Sabana, Venezuela

Aqui temos mais uma composição simples que funciona. Em paisagem é barbada - achou um riacho que leva o olhar para a montanha e você tem uma composição. Vamos analisar a foto.


As pedras bem destacadas no primeiro plano funcionam bem como ponto de entrada. E o riacho leva o olhar adiante até o Monte Kukenan. O céu sem nuvens acaba sendo um bom limitador do olhar, mantendo a atenção no pico, o nosso ator principal. As áreas laterais da foto são neutras e fazem uma boa moldura para o conjunto. 

Praia de Parati ao amanhecer

Nessa foto de Paraty o olhar é levado pelas linhas da praia até a pessoa caminhando, nosso ator principal. A pessoa, mesmo pequena, faz toda a diferença na composição. Ao chegar lá o olhar ainda pode vaguear pelas montanhas, mas de certa forma sempre retorna para a pessoa. 

A pessoa nessa foto é praticamente um imã para o olhar. Dê uma "passeada" com o olhar pela foto e repare como isso acontece. 


Pode-se até dizer que o mar, de forma bem sutil, tem também linhas-guia que levam o olhar para onde a gente quer, reforçando o conjunto.


Pico do Lopo visto da Pedra das Flores, Serra do Lopo

A Luz lateral do entardecer transformou as ondulações da Pedra das Flores em linhas que levam o olhar para o Pico do Lopo. O céu sem nuvens ajudou a concentrar a atenção no pico. Um pouquinho de vinheta aplicada no tratamento reforçou o "aprisionamento do olhar" dentro da foto.


Nas duas últimas fotos a opção pela conversão para Preto & Branco intensificou texturas e formas, e eliminou eventuais distrações causadas pelas cores. Às vezes cores intensas atraem o olhar para onde a gente não quer, tornando a composição confusa.

Auto-retrato no Vale do Jaborandi, Três Picos

Na foto de capa deste artigo tem as óbvias linhas das sombras que levam o olhar até a pessoa (eu mesmo, que botei a câmera no tripé, disparei o timer e corri para sair na foto). O casaco vermelho ajuda muito no processo e ainda funciona bem em contraposição ao verde da mata. Mas ainda existe uma linha imaginaria do meu olhar até o sol. Lembre-se: Se alguém está olhando alguma coisa, o nosso olhar quer saber o que a pessoa está olhando.


Uma oportunidade interessante de trabalhar com linhas é no interior de igrejas. Ali tudo converge para o altar. Nesses casos o arquiteto ou construtor foi o verdadeiro artista, mas a gente tira a nossa casquinha...

Igreja Matriz de São Bento do Sapucaí

Mosteiro da Virgem, Petrópolis

Capela da Fazenda Samambaia, Petrópolis

Agora vamos complicar um pouquinho...

O que define o fluxo do nosso olhar por uma foto são questões bem subjetivas, que podem mudar de pessoa para pessoa, ou até de cultura para cultura. Entendendo bem essa questão da subjetividade, dá para listar alguns pontos:

  • Tendemos a olhar uma foto do primeiro plano para o fundo.
  • Áreas claras ou com muitos detalhes chamam olhar (podem ser bons pontos de entrada).
  • Áreas escuras ou sem detalhes afastam o olhar (podem ser bons limitadores do olhar).
  • Linhas transportam o olhar. Linhas em "S" são especialmente atraentes. Linhas que começam nos cantos inferiores da foto tem uma chance muito grande de "capturarem" o olhar e serem percorridas.
  • Ocidentais enxergam o mundo da esquerda para a direita, por influência da leitura e da escrita (veja novamente aquela foto da praia de Paraty. Tente imaginar ela invertida).
  • Cores vivas atraem o olhar. 
  • Linhas devem levar o olhar para um ponto de interesse, o "artista principal". Cuidado com linhas que levam o olhar para fora da foto...

Então é isso aí!! Se você chegou até aqui, parabéns! Para aprender fotografia não tem receita mágica - no mundo real é preciso estudar e praticar. E quando o assunto é composição o aprendizado é pra vida toda. 

E eu te digo que é um belo caminho a se percorrer...

Como dever de casa eu deixo aqui algumas fotos com composições um pouco mais elaboradas. Observe, tente perceber um ponto de entrada. Que caminho seu olhar percorre? Ele se fixa em algum lugar? Consegue identificar limitadores de olhar? No final você gosta ou não das fotos?

Divirta-se! E se quiser poste suas análises nos comentários. Já de antemão eu te agradeço por isso.

Se preferir, clique nas fotos para ampliar.

Vale dos Frades, Três Picos

Rua da Câmara e Matriz de Santo Antônio, Tiradentes

Riacho no Rocio, Petrópolis

St. James Park, Londres

Portais de Hércules, Serra dos Órgãos


Se você gostou desse artigo e quer ir mais a fundo, venha passar um final de semana fotografando e estudando comigo na ...





8 comentários:

  1. Bela aula. Maneiro...
    Meu respeito!



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  2. Simples, prático e objetivo, além de ser ilustrado com fotografias de alto nível.
    Muito bom!

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  3. Bom dia Didi. Ontem estive com o Flavinho e fiquei muito feliz em saber que seu trabalho em fotografia, tornou-se sua principal atividade. De todos os sobrinhos, talvez você tenha sido o que tive menor contato e pouco sabia de suas vocações, interesses e esta sua paixão por natureza, me faz ver que temos muito mais em comum, do que eu imaginava. Espero um dia podermos trocar um abraço e "corrigir" este tempo em que nada soubemos um do outro. Desejo que você continue tendo sucesso em seus projetos e que bons ventos te levem ao destino desejado, "o topo das montanhas". Com amor, Dinho.

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    1. Oi Dinho, que legal te ver por aqui... Realmente precisamos nos ver mais. Obrigado!!

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