sábado, 7 de março de 2009

Paz Interior


Não importa se os dias estão azuis ou cobertos de nuvens, se as noites estão estreladas ou se são negras e há relâmpagos no céu. O que vale é o tempo que faz dentro de mim e o modo como vejo o mundo. Se ele é luminoso e calmo, estou aberto para a beleza, para a brisa, para a música e para o mistério.


(Trecho do livro "O Som do Silêncio" de Luis Carlos Lisboa - Ed. Verus)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Intervenções na Montanha. Qual o Limite Ético?


Protejam o carater natural e selvagem das montanhas e paredes

A recomendação acima é parte da Declaração do Tirol sobre a Melhor Prática em Esportes de Montanha, promulgada pela Conferência sobre o Futuro dos Esportes de Montanha em Innsbruck, em 8 de setembro de 2002, contém um conjunto de valores e máximas que proporcionam uma orientação sobre a melhor prática em esportes de montanha.

http://www.femerj.org/etica/dec_tirol.html (versão traduzida)

A Declaração do Tirol estabeleceu, na frase que abre esse artigo, o limite ético que deve orientar montanhistas e unidades de conservação quanto às intevenções nas trilhas, paredes de montanhas. Pra ilustrar, apresento abaixo alguns exemplos da clássica Travessia Petrópolis - Teresópolis, que está dentro da UC Parque Nacional da Serra dos Orgãos.

Na foto acima está o trecho conhecido como "Elevador". Trata-se de uma rampa bem íngreme com uma fina camanda de solo e vegetação. Como o uso da trilha a capa de solo cedeu, expondo a rocha. Para manter o traçado da trilha e evitar o desgaste da vegetação das laterais, foi instalada uma escada de tachões.

Na foto mais afastada é fácil ver como a escada limitou o desgaste à linha da trilha, o que não acontece imediatamente acima do último degrau, onde já é visível o alargamento do caminho, expondo a rocha.

Está foi portanto uma intervenção desejável, pois a intenção foi proteger o solo e a vegetação da encosta.
Outra boa intervenção, um trabalho voluntário do montanhista petropolitano Endre de Gyalokay. Num grotão bem no final da Travessia o solo arenoso estava se desfazendo. O terreno, desprovido de rocha, não suportava o tráfego de caminhantes. O Endre então projetou e levou a escadinha da foto acima, interrompendo o processo erosivo.

A foto acima é a do lance mais famoso da Travessia, o lance do Cavalinho. É um lance exposto e íngreme, fácil de passar de mochila leve, mas um pouco trabalhoso de cargueira.

Houve muita pressão por parte de condutores comerciais, no sentido de montar uma escada ali. A idéia era facilitar e tornar o lance mais seguro.

O assunto foi amplamente discutido na Câmara Técnica de Montanhismo e Turismo do Parque, e a conclusão foi de que o lance era uma dificuldade natural da trilha, sem erosões ou desgastes que justificassem alguma intervenção. A única concessão foi a manutenção de um grampo "P" no topo do lance, permitindo ao guia dar segurança aos seus participantes. Assim, o tradicional "lance do cavalinho" foi mantido na sua forma natural, o que foi bastante comemorado pelos montanhistas.
A foto acima não chega a ser uma intervenção propriamente dita, mas é a forma feia de sinalizar uma trilha. Pra piorar, a seta desta foto ainda estava apontando para o caminho errado...

Fica muito mais integrado ao ambiente sinalizar trechos de laje com marcos ou totens de pedra, como na foto acima.

Podemos citar também como exemplos de boas intervenções:
- Calçar com pedras trechos lamacentos
- Manter a trilha aberta, para evitar que pessoas se percam e abram novas trilhas
- Fechar atalhos
- Colocar pedras em erosões, interrompendo o processo

E como exemplos do que se deve evitar temos:
- Colocar cruzeiros em topo de montanha
- Colocar cabos, cordas ou escadas, em trechos de escalaminhada na rocha (onde não existe desgaste).
- Pintar setas

Como resumo de todo o que foi dito, vale a máxima:

"As montanhas são como são. Nunca tente rebaixar o nível da montanha para o seu nível. O correto é elevar o seu nível para o nível da montanha".

domingo, 7 de dezembro de 2008

Novas vias na Pedra da Ferradura

A Pedra da Ferradura (ver post anterior) vai se consolidando com um interessante point de escalada em móvel, contando agora com mais duas vias. A relação atualizada de vias, da esquerda para a direita na foto acima (clicando na foto dá para ampliar), é a seguinte




  • Via Fernando Funchal 3ºIV 100m (Waldyr Neto e Alex Che Ribeiro), via toda em móvel (todos os tamanhos) com P1 em grampo e final na grande árvore. Destaque para um bonito diedro na primeira enfiada.


  • Via Fissurados 4º 90m (Waldyr Neto e Marcelo Garcia), início em grampos seguido de linda fenda de 25m em móvel (nuts, micronuts e friends pequenos) segunda enfiada protegida em grampo e final na grande árvore.


  • Via Um Pássaro que Cai 3ºIV 85m (Alex Che Ribeiro e Fernandes), toda protegida em grampos, é a linha utilizada para rapel a partir da árvore. Aderências, abaulados e uma bonita barriga em agarras.


  • Via Alexandre Motta, 2ºIII 100m (Waldyr Neto e Alex Che Ribeiro), toda em móvel (peças de todos os tamanhos) com parada em móvel e final na grande árvore. Destaque para o interessante diedro final, que não é visível da base.


Já nas primeiras idas na Pedra da Ferradura, me interessei pela bonita fissura frontal que fica na parte central da parede. Depois de conquistar as linhas mais obvias que passavam pelos diedros, resolvi esperar o primeiro final de semana de tempo seco para tentar a conquista.


Como o Alex (que também tava de olho na fissura) estava com o ombro machucado e ficaria uns 30 dias de molho, convoquei o Marcelo Garcia e partimos para Secretário

O início da via passa por uns trechos de aderências e abaulados, relativamente fácil, que foi protegido com grampos de 1/2" devidamente batidos a moda antiga, ou seja, com punho e marreta.


Acima está o Marcelo, abrindo o segundo lance e batendo mais um grampo.

Depois coube a mim inaugurar a fenda, que realmente é bem bacana e deu o grau da via, IV. Na foto acima eu já estou batendo um grampo numa barriga, com um mar de agarrões que acabou sendo mais um atrativo desta via, que provavelmente é a mais interessante deste novo point.

Esta não foi a menor peça que eu usei pra proteger na fissura. Usei várias dessas na primeira metade. No trecho final da fenda entram peças um pouco maiores e tambem entram friends pequenos. A fenda em si não é difícil, mas a colocação das proteções é delicada.

E ai está a árvore, que é o final de todas as vias. O lugar é visual. Dá para sentar, fazer um lanche, curtir a sombra. O rapel é da árvore mesmo, na linha da via Um Pássaro que Cai.
Vale lembrar que tem muitas pedras soltas na parte de cima das vias, e que todos devem usar capacetes, incluindo quem estiver de bobeira na base. Outra recomendação é levar pelo menos duas fitas bem grandes, para montar a parada na árvore, no final das vias.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Pedra da Ferradura - Novo Point de Escalada em Móvel

A Pedra da Ferradura foi assim batizada por ficar logo acima da "Curva da Ferradura" no início da descida para Secretário, pelo asfalto vindo de Pedro do Rio, Petrópolis. O acesso é fácil, numa curta caminhada a partir da pista. A pedra é bem visível, mesmo de dentro do carro.
Na imagem acima estão as duas vias consquistadas hoje - 20/11/2008 - por mim e pelo Alex Che. Em vermelho a via que inaugurou o point, chamada Alexandre Motta - 2ºIII E2 100m - toda em móvel incluindo a primeira parada e o final (em uma grande árvore). Em azul está a linha direta para rapel, que futuramente será também uma via de subida. O primeiro rapel é do tronco da árvore e os seguintes são em dois grampos (é preciso uma corda de 60m). Em amarelo a segunda via aberta, chamada Fernando Funchal - 3ºIV E2 90m - também toda em móvel, mas com a primeira parada em grampo, pouco abaixo de um tetinho. O final também é na árvore.
Abaixo algumas fotos das respectivas conquistas:

Ai sou eu, iniciando a conquista da via Alexandre Motta. A primeira enfiada tem uma passada de II logo no início e depois uma fácil rampa. Na sequência um diedro com pega pela direita que dá um III. Na metade deste diedro fica a primeira parada, que é em móvel. Na sequência, conquistada pelo Alex, a via faz uma pequena travessia para a esquerda, pegando um segundo diedro (pega pela esquerda) também de III seguido de uma rampa com pedras soltas. No final uma laca e acima a grande árvore, que serve de parada.

Acima o Alex, no diedro da primeira enfiada da via Fernando Funchal, pouco abaixo do crux. A via inicia numa fácil rampa para a esquerda seguida de um lance de aderência. Na sequência um bonito diedro com pega pela direita que termina no crux da via, um IV. Depois de uma pequena travessia para a esquerda a via entra numa calha, onde fica o grampo da primeira parada.

Alex se preparando para bater o grampo, ao final da primeira enfiada da via Fernando Funchal.

Ai eu estou iniciando a conquista da segunda enfiada da via Fernando Funchal. A segunda enfiada começa numa delicada subida com pedras soltas, num lance que pode ser feito em chaminé, que dá um III. Depois pega uma bonita fissura frontal acima de um tetinho e segue meio em diedro, meio em aderência até iniciar uma travessia para a direita por um trecho de pedras soltas até a árvore do final da via Alexandre Motta.
Ainda conquistando a segunda enfiada da via Fernando Funchal, pegando a fissura acima do tetinho. O cuidado ai é para não deixar cair uma das muitas pedras soltas.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Porque Subir Montanhas?



Uma montanha pode ser um desafio alimentado por anos a fio, ou um lazer despretensioso, o qual será relatado neste texto.

Olhe ao redor de sua casa, está vendo aquele velho morrote? Acorde mais cedo num domingo e caminhe até o topo. Mas não vá sozinho! Leve uma amiga, o namorado ou os filhos. Leve um chocolate quente para celebrar o nascer do sol. Isto é tudo o que basta para adquirir o vício. E subir montanhas não é um vício daqueles difíceis de largar. Quanto mais você sobe, mais quer subir. Quanto mais picos conhecemos, mais queremos visitar.

Subir para respirar

Na montanha respiramos mais e melhor. As caminhadas são exercícios aeróbicos, e quanto mais inclinado o terreno, melhor é o treino para o fôlego. O ar da montanha... Bom, o ar da montanha dispensa comentários.

Subir para curtir os amigos

A turma é divertida? Topa tudo? Vamos todos para a montanha! A diversão começa nos convites: saber quem vai, quem fica, etc. Depois, arrumar a tralha, encher cantil, limpar (!) as botas e escolher a barraca. Até que chega a hora da subida, cheia de surpresas. No topo, a satisfação de "chegar" e cumprimentar a lua. Dormir e ser acordado pelo sol, para então descer e começar a programar a próxima caminhada.

Subir sem tempo

"Como assim? Se eu não tenho tempo, como vou subir?" "Sem tempo para chegar, eu quis dizer". "Mas se não dá para chegar, para quê eu vou subir? "Numa subida, você é o dono do seu tempo e do seu ritmo. Caminhar é uma atividade cujo desempenho depende de quem a pratica. Existem aqueles que sobem correndo e existem aqueles que percebem cada flor do caminho. Esta é forma mais gostosa de subir montanhas: cada um no seu passo, da forma que dê mais prazer.

Subir para conversar

Na montanha conversa-se muito. Às vezes conversamos com o colega do lado, mas na maioria das vezes conversamos com nós mesmos. É quase inevitável. Praticamente tudo numa caminhada acontece por instinto. Não precisamos raciocinar para caminhar, para respirar ou para olhar ao redor. Isto libera a nossa mente para passar a vida a limpo. A montanha se transforma assim em companheira atenta e paciente, em psicóloga e em confidente.

Subir até parar

E quando é tempo de parar? Nunca. Existem vovôs e vovós que sobem montanhas de mãos dadas e crianças que deram seus primeiros passos nas encostas de alguma serra. Subir montanhas é um exercício sem restrições. Não devemos ter uma boa saúde para subir montanhas, mas sim, devemos subir montanhas para ter uma boa saúde.

"Enfim, devemos subir montanhas para ver o que há do outro lado e então querer ir mais longe. E lembre-se: uma montanha nunca é vencida, é conquistada! (você vence ou conquista uma amizade?)".

Texto de Flávio Nogueira de Melo Oliveira, retirado do site http://www.unicred-nne.com.br/informativos/artigos/058.html

domingo, 7 de setembro de 2008

Escalada e Meditação - Parte 2

Existem momentos em que bate uma grande insegurança durante uma escalada. Nessas horas parece que estamos pensando mais na distância da proteção abaixo do que no lance que temos que superar acima. Resistimos a abandonar algum apoio confiável e muitas vezes nos cansamos muito, perdendo uma energia que pode fazer falta depois.

Talvez o lance esteja realmente acima da nossa capacidade, mas não se pode avaliar isso dominado pelo medo, com mãos suando frio e o corpo tenso. O primeiro passo é reassumir o controle, ou como se diz nos grupos de Meditação, "voltar pro Centro".

Como nessas horas não dá para sentar e meditar por alguns minutos, a saída é fazer exercícios chamados "âncoras", que rapidamente trazem de volta o foco e eliminam parte da tensão corporal. Alias, vale lembrar que a escalada flui melhor com o corpo sem tensões, quando os movimentos saem naturalmente.

Abaixo algumas âncoras, que ajudam muito a estar no estado mental correto para escalar:


  • Acordou pilhado, com o estômago embrulhado pensando no crux da via. Escolha uma parte do corpo como âncora, de preferência uma mão ou um pé. Mantenha o foco nesta parte do corpo, tentando sentir (sem tocar). Isso funciona muito bem durante a caminhada de aproximação. A tendência é chegar na base da via mais sereno, com um bom estado mental para escalar.

  • Você já está na base da via, bastante tenso. Pare um pouquinho e use a mão como âncora. Tente sentir suas mãos (sem tocar). Quando conseguir sentir as mãos tente sentir individualmente cada um dos dedos. Se você conseguir é sinal de que já recuperou boa parte do foco. Hora de entrar na via, tranquilo.

  • Você já está na rocha e "pilhou" para passar num lance. Nessas horas a respiração fica curta e rápida, limitada pela própria tensão corporal. A dica aque é fazer a âncora na respiração, ou seja, respirando longamente e tentando imaginar a tensão corporal como uma energia ruim deixando o corpo.

  • Uma outra boa dica é aproveitar trechos fáceis da via para se preparar para os difíceis. Ao invez de passar nesses lances de forma displicente, passe com atenção, principalmente tentando fazer um perfeito trabalho de pés. Isso vai te deixar mentalmente mais focado para encarar as passadas mais duras.

E lembre-se; tente fazer isso sem tensão corporal, pois em grande parte é essa tensão que consome nossa energia e dificulta os movimentos.

Escalada e Meditação, parte 1: http://amagiadamontanha.blogspot.com.br/2008/09/escalada-e-meditao.html

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Escalada e Meditação - Parte 1

Muitos escaladores treinam forte para subir de nível. Via de regra esses treinos são focados na parte técnica e física. O resultado é uma obvia evolução na rocha, mas nem sempre conseguimos escalar, ou principalmente guiar, no nosso real limite. E essa diferença muitas vezes se deve a fatores psicológicos.

Quem não se lembra de ter desistido de mandar uma passada por medo de cair, ou de passar num lance fácil de forma atabalhoada, ou até ter bobeado num procedimento de segurança por falta de atenção?

Lembraças melhores são daqueles dias em que se supera um lance difícil ou exposto, com a mente tranquila, como se não houvesse a mínima possibilidade cair. Nesses momentos a mente está totalmente focada, sem nenhum pensamento perdido. Pura inteligência corporal. É comum nesses momentos um "estreitamento" da percepção para os limites dos apoios em uso e as passadas imediatamente a frente. 100% de atenção e 0% de dispersão.

Esse estado, que se alcança em alguns momentos e com mais facilidade em vias longas, é semelhante ao estado meditativo.

O estado meditativo é o estado onde se cessa a "metralhadora" de pensamentos dispersos da nossa mente. De forma resumida, meditar é não pensar. Pode ser em silêncio, imóvel em posição de lotus ao bom estilo budista, ou pode ser realizando alguma atividade estando totalmente focado, sem pensamentos dispersos.

Monges budistas buscam o estado meditativo em todos os momentos do dia, estando na posição de lotus ou caminhando ou até lavando vasilhas. 100% de atenção e 0% de dispersão.

Foi nesse estado mágico que o corredor Joaquim Cruz ganhou um ouro olímpico. Totalmente concentrado, correu e venceu, e simplesmente não se lembra de nada que tenha acontecido a sua volta.

Na olimpiada seguinte o mesmo Joaquim Cruz largou, se distraiu olhando a própria imagem no telão do estádio, perdeu o foco e perdeu a prova.

Então, a proposta aqui é que os escaladores desenvolvam a atenção 100% para evitar o que ocorreu com o Joaquim Cruz, que como a maioria de nós, entra e sai do estado meditativo de forma aleatória, nem sempre estando com atenção plena quando isso é necessário, ou seja, quando estamos guiando aquela passada sinistra longe da proteção. Ou quando temos que tirar aquela derradeira energia para mandar a última passada daquele boulder.

E o caminho é se juntar a um grupo de Meditação, tentando estender o aprendizado e a prática para alem dos limites da aula. E principalmente assumindo o comando do estado mental na hora de escalar. Vai fazer uma grande diferênça.