sábado, 17 de janeiro de 2015

Fotografia de Montanha, Parte 3 - Planejamento


Publicado originalmente na Revista Blog de Escalada em 1 de abril de 2014

"You don't take a photograph, you make it." Ansel Adams


Refletindo sobre a famosa frase do mestre Ansel Adams, nós chegamos ao nosso terceiro artigo sobre fotografia de montanha para o Blog de Escalada. Se você não leu os dois primeiros basta conferir nos links abaixo:

Fotografia de Montanha, Parte 1 - Equipamentos

Fotografia de Montanha, Parte 2 - Regulagens Típicas




Nascer do sol com névoa por trás de uma árvore, uma coincidência de eventos difícil de prever

Fotografar é criar uma imagem com a luz. Quando se tem boa luz tudo fica fácil. Por outro lado, quando a luz não é boa, não tem equipamento caro e Photoshop que faça a foto ficar boa. Por esse motivo o fotógrafo de montanha deve ser um obstinado pela busca da melhor luz para suas fotos.

A Hora Mágica


Como regra geral, a luz mais bonita acontece ao amanhecer e ao entardecer, momento que os fotógrafos chamam de “a hora mágica” (the golden hour, em inglês). Pode-se dizer que a hora mágica vai de meia hora antes até meia hora depois do nascer e do por do sol.



É extremamente importante compreender que o momento de cores mais intensas acontece cerca de meia hora antes do nascer do sol, e meia hora depois do por do sol. Um erro que muitos fotógrafos cometem é fotografar o momento do por do sol, guardar o equipamento e ir embora, muitas vezes perdendo a parte mais bonita do entardecer.


Pico do Congonhas, foto feita cerca de 25 minutos após o por do sol, hora das cores mais intensas

Com a luz do sol na cena as coisas ficam um pouco mais difíceis, mas ainda é possível fazer boas fotos usando silhueta, contra luz, sombras, etc.


Amanhecer no Vale do Jaborandi, Três Picos.

Sol a 45º


Por volta do meio da manhã ou do meio da tarde, o sol está relativamente alto no céu, mas não a pino. Nessa hora se tem outra oportunidade bem interessante para fotografia de montanha, com o uso do filtro polarizador. A posição do sol já acrescenta algumas sombras na paisagem, o que deixa as montanhas com relevo e textura. Nessa hora, estando de costas para o sol, o filtro polarizador vai tornar o céu mais dramático, tornando o azul mais fechado e as nuvens mais brancas. Não é uma luz que se compara à luz da hora mágica, mas ainda é uma luz que pode ser bem aproveitada pelo fotografo de montanha.


Três Picos, Capacete e Crista do Dragão, foto feita no meio da manhã com o filtro polarizador circular.

A Conspiração


O verdadeiro fotógrafo de montanha tem que ser um obstinado, pois tudo parece conspirar contra ele. Os clubes de montanhismo, via de regra, tem programações diurnas - a turma se encontra depois do café e parte pra montanha, e a hora mágica já ficou para trás...  Quando a turma chega no topo da montanha já é por volta de meio dia, com a pior luz possível. Na hora mágica da tarde é comum a turma já estar em casa. Muito divertido, mas péssimo para fotografar. 

Quando se viaja para um local turístico a gente acaba seguindo o horário do café da pousada ou hotel e já começa o dia perdendo a hora mágica. Os passeios guiados são normalmente depois do café das pousadas (óbvio!) e lá se vai nosso dia de fotografia. Na hora do por do sol já está todo mundo “entregue” de volta nas pousadas, descansando e tomando banho para sair à noite.

Se a gente realmente quer conseguir nossas grandes fotos de montanha, devemos entender que quem manda na nossa programação é a luz. Não só a luz, mas diversas outras condições naturais envolvendo formação de nuvens, entrada de chuva, floração das árvores, visibilidade, etc.

Quando se fotografa em estúdio, você fecha a porta e cria artificialmente as condições de luz que você precisa para obter o resultado que você quer. Na montanha a luz é natural e você precisa compreender essa luz para programar o melhor momento para conseguir sua grande foto.
Parece complicado? É complicado mesmo...

Pra piorar, mesmo com todo planejamento pode dar tudo errado. Mas acredite, essa incerteza tem sua graça...

Leia aqui um artigo sobre a incerteza na fotografia de montanha.


Fotógrafos de Montanha numa tentativa frustrada de fotografar um amanhecer no cume do Alto da Ventania – Flávio Varricchio, Jorge Goettnauer, Caio Garin e Waldyr Neto.  (essa foto ficou conhecida como “os teletubbies”)

Planejamento Reverso


"A good photograph is knowing where to stand." Ansel Adams

Tudo começa na visualização de uma foto. Pode ser uma locação que você já visitou ou pode ser fruto de alguma pesquisa de outras fotos tiradas de um determinado local. A visualização de uma foto é o ponto de partida para o planejamento:
Onde preciso estar?
Qual a melhor época do ano para fazer a foto?
Qual o melhor horário para fazer a foto?
Alguma condição climática em especial favorece a foto?

O passo seguinte é planejar a saída para fazer a foto de forma reversa, ou seja, do momento da foto para trás. Melhor explicar com uma série de exemplos.

Um amanhecer no Alto da Ventania


O Alto da Ventania é uma montanha que fica na Serra da Estrela, em Petrópolis. É uma montanha ampla, com cristas e formações rochosas. Durante o verão é possível fotografar o amanhecer de lá, pois o sol se desloca um pouco para sul e sai de trás do maciço da Serra dos Órgãos.

O estudo detalhado da posição e horários do nascer do sol foi feito usando o aplicativo The Photographers Ephemeris, que pode ser baixado grátis do site http://photoephemeris.com/

Nota do autor em 17/01/2015: o aplicativo The Photographers Ephemeris agora pode ser utilizado diretamente na web: http://app.photoephemeris.com/



O Alto da Ventania é o ponto marcado pela gotinha vermelha, e a linha amarela é a direção do nascer do sol. (clique na imagem para ampliar)

Com os dados na mão, fizemos nosso planejamento:

Nascer do sol: 6:19
Início da hora mágica: 5:50
Hora ideal de chegada ao cume: 5:30
Hora de início da caminhada: 4:00  (considerando uma hora e meia de caminhada)
Encontro do grupo em Petrópolis: 3:30 (considerando meia hora de deslocamento de carro)
Sair de casa: 3:15
Despertador 2:45

Com o planejamento executado à risca, consegui minha foto:


Hora mágica no Alto da Ventania

Por da Lua e o Pico do Congonhas


Era lua cheia e eu queria fotografar o por da lua próximo a alguma montanha com um perfil bonito. Fiz meus estudos no The Photographers Ephemeris e vi que eu poderia fotografar a lua se pondo ao lado do Pico do Congonhas, um pico pontiagudo visível da subida da serra de Petrópolis. Fui movimentando o cursor pela linha da estrada e achei o ponto exato da foto.


Na imagem o Pico do Congonhas está assinalado com uma seta vermelha (clique na imagem para ampliar)

Calculei meus horários e consegui minha foto, exatamente como previsto.


Pico do Congonhas e o Por da Lua Cheia

Por da Lua sobre o Dedo de Deus


Numa outra lua cheia dei minha estudada no The Photographers Ephemeris e vi que seria possível fotografar a lua cheia se pondo sobre o Dedo de Deus. A foto seria tirada do cume da Pedra do Elefante, em Teresópolis.


A linha do por da lua, em azul escuro, passando sobre o cume do Dedo de Deus (clique na imagem para ampliar)

Como eu moro em Petrópolis, o planejamento foi puxado...

Por da lua: 6:24 (na linha do horizonte, não no topo das montanhas)
Começa a clarear: 6:00 (estimamos que a lua estaria baixa, próximo às montanhas)
Hora ideal de estar no topo da montanha: 5:30
Início da caminhada: 5:00  (considerando 30 minutos de subida)
Hora de sair de casa: 3:30  (considerando uma hora e meia de estrada)
Despertador: 3:00

Chegamos no topo da montanha, fizemos um lanche e u fiz um registro dos obstinados fotógrafos de montanha em ação.


Esperando o por da lua no topo da Pedra do Elefante – Flávio Varricchio, Arthur Mariano, Eduardo Gelly e Waldyr Neto

Quando o dia começou a clarear a lua se escondeu na névoa, mas mesmo assim acho que consegui uma foto bem bacana.


Serra dos Órgãos e o Por da Lua

Entrada de uma Tempestade


Era uma tarde de dezembro. Estava sol, mas a previsão era de chuva. Assim que o tempo fechou arrisquei uma ida a uma pista de voo livre num lugar chamado Parque São Vicente. Não fiz nenhum grande estudo, mas fui contando com a possibilidade de fazer alguma foto na linha dos Caçadores de Tempestade (Stormchasers, em inglês). Já tinha tentado pegar uma entrada de tempestade muitas vezes sem sucesso, mas dessa vez eu consegui. Nessa foto optei pela conversão para preto e branco para tornar a cena mais dramática.


Entrada de uma tempestade sobre a Serra do Tinguá.

A Incerteza


O planejamento não é garantia de conseguir grandes fotos, mas aumenta bastante as chances. O aplicativo The Photographers Ephemeris é relativamente fácil de usar, mas nem sempre é fácil se localizar no mapa. É importante ir praticando e comparando o que foi planejado com o que realmente ocorreu.

Com o tempo a gente vai desenvolvendo uma habilidade de pré-visualização das fotos, um conceito desenvolvido pelo mestre Ansel Adams: Você vê uma cena e imagina essa cena numa condição ideal de luz, sombras, formação de nuvens, etc. Feito isso, a ideia fica guardada até que as condições aconteçam e você volte para conseguir sua foto. Às vezes é preciso voltar, voltar, voltar...

Com essa nossa conversa sobre planejamento eu encerro aqui o ciclo de três artigos sobre fotografia de montanha. Espero o material seja útil e espero conseguir despertar em cada leitor o “obstinado fotógrafo de montanha” disposto a compreender e perseguir a melhor luz.

Como uma última mensagem, digo que vocês devem acima de tudo curtir a montanha e a companhia dos amigos de aventura, pois nem sempre será possível voltar pra casa com as grandes fotos. Sem essa filosofia, a fotografia de montanha em alto nível pode ser algo extremamente decepcionante.

"Landscape photography is the supreme test of the photographer - and often the supreme disappointment." Ansel Adams

Gostou do artigo? Que ir mais à fundo? Conheça o Workshop de Fotografia de Montanha

Fotografia de Montanha, Parte 2 - Regulagens Típicas


Artigo publicado originalmente na Revista Blog de Escalada em 4 de fevereiro de 2014.

Nesse nosso segundo artigo vamos tratar das regulagens típicas da fotografia de montanha. O objetivo aqui é conseguir a nitidez, foco e fotometria corretos. Aqui os outros artigos da série:

Fotografia de Montanha, Parte 1 - Equipamentos

Fotografia de Montanha, Parte 3 - Planejamento




Amanhecer no Alto da Ventania – f/11; 2,5s; ISO160

Em geral, quando se fotografa as paisagens em montanha, o que se quer é uma foto com grande resolução, além de foco em toda a cena, ou seja, foco desde o primeiro plano até o infinito. É lógico que existem outros tipos de abordagem em fotos de montanha, mas na grande maioria das fotos o que se quer é essa nitidez extrema na cena toda.

ISO


A questão do ISO é bem simples: Nessas fotos vamos usar o ISO que nos dará mais nitidez, ou seja, o ISO mais baixo da câmera. Fotos de paisagem costumam ser muito ricas em detalhes e o uso de ISOs altos pode comprometer seriamente a nitidez. A exceção seria quando se quer congelar algum movimento (um cavalo correndo, o voo de uma ave, etc.) e nesses casos pode ser necessário subir um pouco o ISO, mas com uma consequente perda de qualidade da imagem.


Nota: Entrando um pouco mais a fundo nessa questão, o ISO de maior qualidade da imagem não é necessariamente o mais baixo, mas sim o ISO nativo da câmera. Na minha Canon EOS 7D, o ISO nativo é 160. Mas nem sempre conseguimos ter certeza sobre essa informação. Na dúvida siga sem medo a regra do ISO mais baixo.


Vale dos Frades – f/11; 1/60s; ISO100

Abertura


O foco em toda a cena se consegue com pequenas aberturas. É comum o uso de f/8, f/11 ou até f/16. A partir daí a imagem começa a degradar devido a um fenômeno chamado difração da luz, e é por isso que se deve evitar f/22 ou aberturas até menores. Nas típicas “lentes do kit”, as 18-55mm que vem na maioria das câmeras, f/11 é uma ótima pedida.

Para as finanças do fotógrafo de montanha isso é também uma boa notícia, pois em geral não é necessário investir nas caras lentes luminosas (lentes com grandes aberturas).


Velocidade


Aqui entra a verdadeira variável na fotografia de montanha. Com a câmera travada em ISO100 e f/11, o que vai definir a fotometria é velocidade. E como estamos trabalhando com ISO baixo (baixa sensibilidade) e pequenas aberturas (pouca entrada de luz), vamos precisar de mais tempo para a captura da luz que vai dar a exposição correta.

Exposições longas = necessidade de tripé

Se você leu o primeiro artigo e ainda não se convenceu da necessidade de um bom tripé, espero que essa explicação te convença. Tripé é fundamental em fotografia de paisagem, devido aos longos tempos de exposição necessários para compensar o ISO baixo e a pequena abertura. 


Entardecer em Guapiaçu – f/16; 1/20s; ISO160

Fotometria e Histograma


Hoje em dia é fácil acertar “mais ou menos” a fotometria. A maioria das câmeras tem o recurso de live view e você pode (tendo travado ISO 100 e f/11) ajustar a velocidade até ver o resultado que você quer no LCD. Mas é extremamente importante verificar o histograma, que é aquele gráfico que apresenta a distribuição dos pixels nas zonas de baixas, médias e altas luzes. 


Histograma
A questão crítica aqui é evitar os estouros, ou seja, evitar que o histograma fique “empilhado” na extremidade direita. Estouro é quando você tem uma área na foto totalmente branca, sem detalhes. Em fotografia digital estouro não tem conserto.


Histograma indicando estouro


Nessa foto dos Três Picos o estouro na captura deixou as nuvens sem detalhes ou textura.


Já nessa foto do Morro dos Cabritos a exposição correta preservou os detalhes e textura das nuvens.

Então não se esqueça! O histograma é a ferramenta mais importante para fotometria em fotografia digital. Aprenda a usá-lo.

Hiperfoco


O foco em toda a cena tem um nome: Hiperfoco. Para conseguir o hiperfoco é preciso focar na distância hiperfocal, que nas pequenas aberturas é algum lugar bem próximo, literalmente o primeiro plano da foto. 


Nesta foto do Rio Tök e Monte Kukenan o foco foi feito nas pedras do primeiro plano – f/8; 2s; ISO100

Aqui um link com a explicação completa da distância hiperfocal e um aplicativo que gera uma tabela específica para cada tipo de câmera: http://www.cambridgeincolour.com/tutorials/hyperfocal-distance.htm

Existem também aplicativos que calculam a distância hiperfocal para smartphones. Mas não se assuste. Focar no plano mais próximo costuma dar certo.


Morro dos Cabritos e Pedra D’Antas, foco feito na pilha de madeira – f/11; 1/20s; ISO160

Na Prática


Hora de botar tudo em prática... Bote a câmera no tripé e enquadre a cena. Faça foco em algum elemento do primeiro plano. Estando no modo M, com ISO100 e f/11, ajuste a velocidade até a fotometria desejada. Confira no histograma se não tem estouro. Por fim faça o disparo usando um cabo disparador ou o timer da câmera.

Uma última dica: Com a câmera no tripé, desabilite o estabilizador de imagem (IS na Canon, VR na Nikon). Estabilizador de imagem se usa quando a câmera está na mão.

Confira a foto no LCD da câmera - verifique enquadramento, foco e histograma. 


É uma receitinha básica, mas bem útil pra como ponto de partida. Com o tempo é importante ir mais a fundo nas questões de fotometria, fotografando no formato RAW e usando o conceito de ETTR – Exposing to the Right. Assunto para futuros artigos.

Leia o próximo artigo da série: Fotografia de Montanha, Parte 3 - Planejamento

Confira a programação do Workshop de Fotografia de Montanha

Fotografia de Montanha, Parte 1 - Equipamentos


Artigo publicado originalmente na Revista Blog de Escalada em 17 de dezembro de 2013.

Recentemente fui convidado para escrever uma série de três artigos sobre fotografia de montanha para o blogdescalada.com e resolvi começar falando de equipamentos. Apesar de não achar esse o tema mais relevante, acho oportuno começar falando de equipamentos para evitar que quem se interesse pelo assunto não faça maus investimentos. Equipamento fotográfico costuma ser caro e é importante não queimar nosso orçamento com aquisições ruins.

Aqui os links dos outros artigos desta série:

Fotografia de Montanha, Parte 2 - Regulagens Típicas

Fotografia de Montanha, Parte 3 - Planejamento

A Câmera


Aqui temos dois enfoques: Alguns montanhistas preferem ter boas câmeras compactas para ganhar em peso e mobilidade. Outros priorizam a qualidade e por conta disso tem que levar câmeras maiores, além de lentes e outros acessórios. Alguns, como eu, tem as duas coisas. Normalmente levo a compacta quando vou escalar ou pedalar, e levo o equipamento completo quando vou caminhar ou quando saio exclusivamente para fotografar.


Na categoria das compactas, esqueça as mais simples, chamadas de “point and shoot” e evite também as superzoom. Existem no mercado ótimas câmeras compactas, bastante robustas, com bons sensores e com recursos avançados. Por recursos avançados entenda a possibilidade de se fazer fotos no modo M (regulagem manual), gerar arquivos no formato RAW e ter muitos comandos à mão. Alguns bons exemplos são as câmeras Sony RX100, Canon G15, Nikon Coolpix A e Panasonic Lumix LX7.


A compacta avançada Canon G15

O segundo item do “kit leve” é um tripé compatível com a câmera. Tripé é um item fundamental em fotografia de montanha e paisagem em geral, e curiosamente é um item bastante negligenciado. O modelo MKC3-H01 da fabricante italiana Manfrotto é uma excelente opção para acompanhar uma compacta na mochila. É leve, compacto e tem cabeça de bola, o que permite rápidos ajustes.


Tripé Manfrotto MKC3-H01

Outro item bastante importante em fotografia de montanha é o filtro polarizador circular. Em geral essas câmeras não vem com rosca para encaixe de filtros, mas existem no mercado bons kits para adaptação. Um bom filtro polarizador circular é o Hoya Pro 1 Digital. Recomendo fortemente que não se economize na qualidade deste item.

Quando a qualidade máxima é o fator de decisão, a escolha passa a ser uma câmera D-SLR. Algumas pessoas chamam essas câmeras de profissionais, o que é um engano. O que faz uma câmera ser profissional tem mais relação com robustez e durabilidade do que propriamente o tipo da câmera. Não se espantem ao achar uma D-SLR de entrada bem mais frágil do que uma boa compacta avançada. É mais frágil mesmo!

Para quem está com o orçamento apertado o caminho é pegar uma Canon T4i ou uma Nikon D3200. Ou até uma câmera acima dessas usada. Essas câmeras não são tão robustas, mas tem ótimos sensores. Em se falando de qualidade da fotografia é isso que vai fazer a diferença.

Tendo um orçamento maior, já é possível pensar em pegar uma câmera realmente profissional, que são maiores, mais robustas e seladas, o que é uma segurança adicional quando se fotografa nas duras condições das montanhas. A desvantagem é que essas câmeras são mais pesadas.


Nikon D3200, uma boa D-SLR de entrada

Nota do autor em 17-01-2015: As câmeras mirrorles (sem espelho) vem se tornando uma excelente opção, pois são mais compactas do que as D-SLR e tem sensores e ótica equivalentes. As mirrorles são hoje uma opção a ser considerada seriamente pelos fotógrafos de montanha.

Lentes


A lente é um item bem mais importante do que a câmera. Infelizmente as câmeras D-SLR de entrada vem com as fracas “lentes do kit”, normalmente uma 18-55mm. Comece com ela, mas pense em comprar uma boa lente na medida em que adquirir mais conhecimento e algumas economias. 

Importante: muita gente tem um certo fetiche pelas “lentes rápidas” ou “lentes luminosas”. São lentes com grandes aberturas. Essas lentes são especialmente caras e muito uteis em alguns tipos de fotografia. Mas em fotografia de montanha é mais comum se usar pequenas aberturas, e com isso é possível economizar na compra da lente. Um bom set de lentes para montanha seria uma lente média, uma tele e uma angular, adquiridas nesta ordem. Tenha um parasol para cada lente.

Tripé


Aqui o tripé passa a ser um item bastante crítico. O equipamento mais pesado pede um tripé mais estável, mas a atividade de montanhismo pede um tripé leve e compacto. A solução dessa complicada equação costuma custar caro. O ideal é ter um bom tripé de fibra de carbono, material mais leve e mais rígido que o alumínio. Recentemente comprei um tripé Manfrotto 190CXPRO4, um tripé de fibra de carbono com 4 estágios. Montei nesse tripé uma cabeça Manfrotto 498RC2, de bola e com um disco panorâmico. Fechado cabe dentro da mochila e o peso é bem aceitável. Mas não foi barato. Um conjunto desses custa em torno de R$ 1.500,00. É possível gastar um pouco menos? Sim, usando um tripé de alumínio. É possível gastar BEM menos? Sim, mas com o tempo você vai descobrir que fez um mau negócio, como eu mesmo descobri recentemente. Considere que um bom tripé fará bastante diferença na qualidade das suas fotos.

Mais uma dica sobre tripé: Nem sob tortura compre um tripé com cabeça de três eixos. Em fotografia de montanha e natureza muitas vezes precisamos rapidamente montar o tripé e fazer um enquadramento. E fazer isso regulando um eixo de cada vez é incrivelmente irritante. Compre um tripé com cabeça de bola.


Cabela de bola Manfrotto 498RC2

Filtros


Polarizador Circular: Esse é o filtro mais importante em fotografia de montanha e deve ser o primeiro a ser adquirido. Polarizadores são usados para destacar as nuvens do céu e também para tirar reflexos de superfícies molhadas. São por isso muito úteis em fotos de paisagem e cachoeiras.


Parque Estadual dos Três Picos, foto feita com polarizador circular

Filtro ND: O filtro ND basicamente vai roubar luz da cena, permitindo fazer fotos com exposições mais longas. Bastante usado em fotos de mar ou cachoeira, ou até para borrar movimentos de nuvens.


Trindade, foto feita com filtro ND para transformar em névoa o movimento das ondas

Filtros graduados: Esses filtros são especialmente caros e seu papel é equilibrar a luz numa cena que tenha muito contraste. São montados num suporte giratório que permite o posicionamento da transição em qualquer posição da foto.


Anel, suporte e filtro graduado


Rio Tök e Monte Kukenan, foto feita com filtros graduados para equilibrar a luz do primeiro plano com o céu

Acessórios Importantes


Cabo disparador: permite fazer a foto sem contato com a câmera, eliminando vibrações. Pode ser substituído pelo timer de 2s que as câmeras costumam ter.

Bateria extra: na montanha é sempre importante ter uma.

Kit de limpeza: Para limpar as lentes, um soprador e um lenspen. Para limpar o LCD, paninhos de microfibra. Itens fáceis de encontrar em lojas especializadas.

Flash externo: É possível incrementar suas fotos de montanha dominando a técnica do flash de preenchimento. Não se preocupe com isso no início, mas depois de comprar seu kit básico de câmera – lentes – tripé – filtros, pense em adquirir um flash externo e em investir algum tempo de estudo.

Para saber mais sobre flash de preenchimento:


Nível de bolha: Existem no mercado pequenos níveis de bolha que encaixam na sapata de flash das câmeras. São itens bem baratos e muito uteis para evitar fotos com horizonte torto. 


Nível de bolha montado na sapata do flash

Mochila: Existem no mercado vários modelos de mochila para material fotográfico. Em geral esses modelos não são lá muito bons para montanhismo. Se você tem uma boa mochila de caminhada, compre pequenas cases para acomodar a câmera e os demais componentes. Eu em geral faço isso. É importante que a mochila tenha capa de chuva, ou que você compre uma capa avulsa.

É isso aí pessoal! Equipamento fotográfico não é barato, mas pode-se dizer que o equipamento típico de fotografia de montanha não é dos mais caros, comparando com outros tipos de fotografia. Investimento para ser feito aos poucos, junto com o investimento em conhecimento. O próximo artigo será sobre fotometria e as regulagens típicas usadas na fotografia de montanha. 

Leia o próximo artigo da série: Fotografia de Montanha, Parte 2 - Regulagens Típicas

Confira a programação do Workshop de Fotografia de Montanha